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04/09/2006

Por Paulo Amaral

Animal? Só com a bola nos pés. Edmundo, símbolo do sucesso da parceria Palmeiras/Parmalat no início dos anos 90, deixou a fama de bad boy e as inúmeras confusões que arrumou por onde passou para trás. Atualmente, não tem nada de Animal em seu comportamento, fazendo jus ao apelido conquistado quando apareceu para o futebol no Vasco da Gama somente pela vontade com que defende as cores do Palmeiras, agora seu clube de coração.

Apaixonado pelo Verdão e por seus três filhos (Alexandre, 12 anos, Ana Carolina, 11, e Edmundo Júnior, 7), o camisa sete parece mesmo movido pelo amor em sua segunda passagem pelo Parque Antártica. Após revelar ter assinado um contrato de risco para evitar bater de frente com o ex-técnico Emerson Leão, Edmundo, artilheiro da equipe na atual temporada, renovou seu vínculo até dezembro de 2007, quando pretendia se aposentar, mas admitiu, em conversa com a GE.Net, a possibilidade de pendurar as chuteiras somente no final de 2008, se o Palmeiras ainda o quiser.

No descontraído bate-papo com a reportagem, Edmundo falou sobre a “dívida” que tem com Edmundo Júnior, seu filho caçula, o único dos três rebentos que, segundo o jogador, não tem noção da importância do Animal para o futebol brasileiro. “Essa cobrança mexeu comigo. Pensei que tinha que jogar mais um pouco em um time legal, para que meu filho entenda o que eu sou, pois minha filha, que é mais velha, viu e tem essa visão”.

A fatídica derrota para a França, em 1998, também apareceu na conversa e, surpreendentemente, Edmundo revelou que até hoje não acredita que estivesse escalado para jogar a finalíssima no lugar de Ronaldo “Fenômeno”, como chegou a ser anunciado pelas televisões momentos antes de a bola rolar. ”Tanto minha escalação não estava certa que o Denílson entrou primeiro do que eu. Meu nome foi para a papeleta porque eles devem ter pensado: se ganhar, beleza, se perder, problema de vocês. Não queriam o Edmundo? Não era uma aposta no Edmundo. Era meio que tirando o corpo fora”, opinou.

O craque da mística camisa sete do Verdão também conversou com a GE.Net a respeito do futuro longe dos campos e sobre a carência de ídolos no país, que faz os clubes repatriarem velhos ídolos na tentativa de resgatar a magia. Parecendo prever o futuro, na entrevista antes da goleada sofrida diante do Santos, Edmundo alertou ainda sobre o otimismo exacerbado que tomou conta do Palestra depois da incrível recuperação pós-Copa do Mundo e avisou: o Palmeiras ainda não está pronto. Confira tudo isso na entrevista “Animal” do grande nome do atual elenco palmeirense.

Gazeta Esportiva.Net – Você chegou ao Palmeiras no início da temporada para trabalhar com o Leão e sua conhecida linha dura, mas acabou tendo problemas com o Tite, que é bem menos rigoroso (reclamou ao ser substituído na derrota para o Flamengo, dia 31 de maio). O que aconteceu?
Edmundo -
Para mim, particularmente, foi um acidente de percurso, uma besteira. Na verdade, eu não retruquei ou cometi um ato de indisciplina, eu apenas discordei da substituição, pois achei que estava bem no jogo. Depois eu entendi de outra maneira. Ele me explicou que o importante não é jogar os 90 minutos, e sim estar bem no tempo em que estiver em campo. Beleza. Discordei, paguei por isso e acabou. Lidar com pessoas assim é muito bom. Fiz, paguei e pronto.

GE.Net – Como você está se sentindo atualmente no Palmeiras e como é sua relação com o técnico Tite?
Edmundo -
Estou feliz para caramba com ele e com o trabalho. O seu Palaia (diretor de Futebol) está contente, o presidente, que é uma pessoa maravilhosa e atuante, também. Eles estavam sofrendo demais, e agora estão felizes. Tudo isso é muito bom.

GE.Net - Se fosse em outro clube, você estaria com essa alegria de jogar?
Edmundo -
Tem a ver com o Palmeiras, mas também com as condições que você recebe. Jogar em um clube que não paga, não tem estrutura e vem te cobrar, acaba te desanimando. Se o treinador te olha torto, a tendência, mesmo sem querer, é diminuir seu ritmo. Se você está bem, dá até mais gás do que tem. Faz mais e vai além do seu limite porque as pessoas merecem. No Palmeiras, sei que as pessoas gostam de mim e me respeitam, e isso é muito importante.

GE.Net – Alguns times brasileiros estão recorrendo a antigos ídolos para tentar resgatar torcedores e vitórias. O Santos fez isso com o Giovanni e o dispensou, o Cruzeiro trouxe o Geovanni, o Flamengo trouxe o Sávio e o Palmeiras você. A maioria ainda não deu certo, mas você encaixou de novo com o time. Por quê?
Edmundo -
O Giovanni até estava bem, jogando um belo campeonato pelo Santos. Se esperar do cara que faça um monte de gols e seja o mesmo jogador que foi antes, não dá certo. Na minha ótica, é porque tenho prazer, alegria, e estou me dedicando muito mais. Hoje faço menos, mas me dedico mais. Gosto do clube, faço as coisas com carinho e dedicação. Não estou aqui pela grana. É uma relação de prazer. Lógico que ganho e ganho bem, mas aceitei o que me ofereceram e impuseram, pois sabia que, se havia algum lugar para resgatar o que tinha de bom e não me decepcionaria, era aqui.

GE.Net – Você falou em “aceitar o que te impuseram”. É verdade que você assinou um contrato de risco ao voltar para o clube?
Edmundo -
Tinha uma cláusula, pois existia a possibilidade de ter atrito com o Leão, aquela desconfiança. O contrato poderia ser rescindido por ambas as partes a qualquer momento. Agora não, o contrato tem multa, etc, muito mais colocado pelo Palmeiras com receio que eu fosse bem. Por mim, continuava. Falei para o Palaia que não sou preso a nada, a não ser a minha família. Se não estiverem satisfeitos comigo, não precisam me mandar embora. Eu vou lá avisar que vou embora. É uma preocupação que não precisam ter.

GE.Net – E as suas preocupações em voltar para o Palmeiras? Soube que teve algo a ver com seu filho caçula...
Edmundo -
Meu filho é diferente, é maravilhoso. Você tem filhos? Não? Quando tiver, vai saber o que estou falando. Ele é especial, pois não está nem aí para futebol ou para os times. Ele não está nem aí se o time ganhou ou perdeu, não tem um time. Ele torce pra mim. Ele é muito grudado comigo como pessoa. Foi uma cobrança que mexeu comigo. Na escola, as crianças falam do pai dele e ele não vê em mim esse ídolo, esse jogador que eu fui. Já falou que não sabia que eu dava autógrafo. Pensei que tinha que jogar mais um pouco em um time legal, para que meu filho entenda o que eu sou, pois minha filha, que é mais velha, viu e tem essa visão.

GE.Net – E já conseguiu mudar a visão dele?
Edmundo -
Meu filho anda de motocross na categoria dele, pega onda, anda de skate. Ele não liga para futebol, mas tem essa coisa comigo. Eu acho que agora está mais consciente, mas não sei se já consegui mostrar pra ele. Na Copa, ele chorou quando o Brasil perdeu. Me vi como em 82, que chorei pra caramba. Ele perguntou por que não fui para a Copa. Não tem essa noção de que eu estou com 35 anos, estava parado no início do ano e só depois fui para o Palmeiras. Quando fui para a Copa, em 1998, a Adriana estava grávida dele. É uma relação complicada minha com ele, pois não me viu efetivamente como ídolo. Tem a ciência pelo que os outros falam, mas me cobrou.

GE.Net – Você ainda pensa na Copa de 1998? O Brasil seria hexa se tivesse jogado a final no lugar do Ronaldo?
Edmundo -
Cometi um grande erro naquela Copa. Por amizade ao Washington Rodrigues (ex-técnico do Flamengo e atualmente radialista no Rio de Janeiro), dei uma entrevista quando o Romário foi cortado, por telefone, e teve uma repercussão muito grande, pois falei que era a minha vez. Quem estava no grupo, recebeu as declarações de maneira negativa, como se eu estivesse fazendo uma imposição. Ninguém tem culpa, mas fiquei bravo ao ver o Zagallo falando que ninguém ganharia vaga no grito, fazendo um alvoroço por causa do que falei em amizade ao Washington e que chegou distorcido aos ouvidos dele. Tenho certeza que, se eu não tivesse sido inscrito, teriam me cortado, tanto que no amistoso contra Luxemburgo, que foi 8 ou 9 a 0, todo mundo entrou. Os dois goleiros reservas entraram e eu não. Fui o único a não participar. Não posso dizer pra você que eu era o preferido. Sempre que o ataque ia mal e o Zagallo tirava o Bebeto, ele colocava o Denílson. Na final, tanto minha escalação não estava certa que o Denílson entrou primeiro do que eu. Meu nome foi para a papeleta porque eles devem ter pensado: ‘Se ganhar, beleza, se perder, problema de vocês. Não queriam o Edmundo?’ Não era uma aposta no Edmundo. Era meio que tirando o corpo fora. Com relação ao jogo, não sei se o Brasil ganharia ou não comigo em campo, só sei que daria o meu máximo para tentar conseguir a vitória.

GE.Net – O que aconteceu realmente com o Ronaldo naquele dia?
Edmundo –
Ele teve uma convulsão e fui eu quem viu. Estava no lugar errado, na hora errada. Teve convulsão e eu chamei todo mundo. Chegando no Brasil, o Zagallo falou que não sabia de nada e isso não é verdade. Não quero desmentir um senhor na idade dele, mas porra, ele é o treinador do time. Acontece um problema com seu melhor jogador e ele não sabe? É meio estranho, mas já passou. O Zagallo tem uma história linda com a seleção, é maneiro, e o time tinha vontade, mas o que aconteceu com o Ronaldo abateu o grupo todo, são coisas que acontecem no futebol. Me diz aí um outro gol que o Zidane tenha feito de cabeça? Só um. Joguei contra ele na Itália, acompanhei a carreira, era fã, mas nunca vi. E naquele jogo ele marcou dois.

GE.Net – Bom...essa Copa já passou e o Brasil não ganha mais, então vamos voltar a falar do Verdão. Em sua opinião, o que dá para esperar desse time?
Edmundo -
Muita coisa, pois aqui não há privilégio para ninguém. Todos têm horários a cumprir e pagam cesta básica se o celular toca no horário de concentração. Eu já tive privilégios, já trabalhei com quem teve privilégios e sei como isso atrapalha, mas é culpa de quem comanda. No Palmeiras, o principal é que todos são tratados com igualdade e cumprem sua função. Por isso tem dado certo. Sei que não vamos ganhar tudo, pois não somos uma realidade ainda e estamos tentando construir uma equipe. A molecada daqui quer crescer e está conseguindo e quem comanda tem que ser valorizado, pois sabe que, às vezes, você paga fortunas por um jogador e tem igual ao seu lado. Estamos muito bem comandados e o Tite é o cara.

GE.Net – De maneira objetiva, resuma: o que é o Palmeiras para você?
Edmundo -
Putz, cara, não sei. Você dá aquilo que você recebe. Se você recebe carinho e admiração, retribui. Algumas pessoas dizem que estou exagerando, mas acho que não. Nos dias de hoje, recebo mais do Palmeiras do que dou, acho que pelo que conquistei aqui, por causa da fila, da sintonia com o torcedor. Vejo isso na rua, no banco, na farmácia. Todos os dias recebo uma coisa muito bacana, uma energia legal e, em minha opinião, não tenho feito tanto para isso, não tenho marcado um número grande de gols. Valorizo muito isso hoje. Antigamente, queria ganhar dinheiro, comer um monte de mulher. Em uma palavra não sei dizer o que significa o Palmeiras, mas acho que podemos simplificar: O Palmeiras é algo que só trouxe alegrias à minha vida.

GE.Net – Para finalizar, o que pensa em fazer no futuro: segue no futebol ou investe no ramo de concessionárias de automóveis (já é dono de uma)?
Edmundo -
Não sei ainda. Só sei que vou terminar aqui, isso é certeza. Se chegar ao final do ano que vem bem e em condições para jogar mais um ano, renovo, mas vou terminar aqui, a não ser que um time dos Estados Unidos ou do Catar ofereça um caminhão de dinheiro para jogar dois ou três meses.
Na minha cabeça, o ano de 2007 é para amadurecer estas idéias. Vou ficar em São Paulo, pois gosto da cidade e sou respeitado. Tenho condição muito boa e posso viver de renda, mas tenho medo de pegar uma parte do patrimônio e investir em alguma coisa, pois só eu sei o que ralei para chegar aqui. Talvez abrir um escritório e empresariar carreira de atletas, que é algo que não precisa investir nada. Basta abrir uma salinha e esperar um jogador cair do céu. Vou jogar e programar o que fazer.


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