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08/08/2006

Foto: Gazeta Press

Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press

Com cinco estaduais seguidos, Muricy luta por primeiro título internacional. Já Abel quer acabar com estigma de vice.

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Abel x Muricy: quem vai se tornar “top”?

O grupo de técnicos brasileiros incontestáveis vai ganhar mais um integrante em 16 de agosto, data da partida decisiva da Copa Libertadores da América. Com apenas conquistas regionais no currículo, Abel Braga ou Muricy Ramalho farão definitivamente companhia a Valdir Espinosa, Luiz Felipe Scolari, Antonio Lopes e Paulo Autuori, como vencedores da competição.

Dois dos treinadores mais estáveis nos últimos anos no futebol brasileiro, eles comandaram boas campanhas nas Laranjeiras e Beira-Rio na última temporada e vêm mantendo o nível em novas casas neste ano. Entretanto, não apareceram nas sondagens para assumir a seleção brasileira. O título da Libertadores os colocaria um degrau acima de Wanderley Luxemburgo e Emerson Leão que, apesar de serem considerados top e já terem passado pela equipe nacional, nunca conquistaram a América.

Abel Braga já teve a chance de cravar seu nome no cenário nacional nos dois últimos anos, quando chegou à decisão da Copa do Brasil com Flamengo e Fluminense. Nas duas oportunidades, ele perdeu o título para pequenos clubes de São Paulo, Santo André e Paulista. “Não me importo com isso. Quando eu chego em um clube, eu trabalho para chegar na final. E estou chegando”, defende-se.

“É difícil chegar em finais da Copa do Brasil em dois anos consecutivos. Você não chega por sorte”, continua Abel. Para acabar com esse estigma de vice-campeão, no entanto, o comandante do Internacional acha que já fez o que podia. “Agora, a falha ou o destino vão decidir esse título. O que eu posso fazer? Já está escrito o que vai acontecer”, filosofa.

Se o Internacional conquistar a Copa Libertadores, no entanto, Muricy Ramalho também vai ter seus méritos. Foi o técnico do São Paulo quem classificou o time para o torneio continental no ano passado – quando também foi vice, mas do Campeonato Brasileiro – e armou a base do time que hoje Abel Braga dirige. Dos 11 que devem começar a partida desta quarta, apenas Fabiano Eller e Fabinho não trabalharam com o comandante são-paulino.

“Não se pode esquecer que foi o Muricy quem começou esse trabalho no Internacional. É claro que estou dando minha cara à equipe, mas ela ainda deve muito a ele”, reconhece o técnico do Colorado, que fez treinamentos secretos na segunda e na terça-feira, justamente porque o rival conhece bastante seus jogadores. Os atletas, aliás, não se esquecem do ex-comandante.

O atacante Fernandão, um dos que mais lembra do antigo técnico, compara os estilos de Abel e Muricy. “Cada um tem sua filosofia, mas os dois são muito detalhistas, por isso estão conseguindo esse espaço no futebol. Eles conseguem formar uma família por onde passam”, comenta o colorado, que, como seus companheiros, não vai se importar em entristecer Muricy Ramalho nesta quarta-feira.

Já Muricy Ramalho sabe da importância do título da Libertadores da América, mas não se entusiasma com a possibilidade de subir um degrau em sua carreira profissional. ”O futebol não permite você ficar empolgado com um bom momento. Um dia você serve para o time, no outro já não serve mais”, lamenta o treinador sobre a realidade de sucessivas demissões vistas nos clubes brasileiros.

Segundo o comandante são-paulino, os dirigentes deveriam modificar o tratamento com os técnicos que não conquistam títulos, mas formam uma boa base para o futuro. ”O treinador precisa brigar muito para ter o trabalho elogiado. Aqui precisa ser fera para receber um reconhecimento. Acho que no futebol precisamos ver quanto tempo o profissional está no meio, se revela ou não jogadores. Na Inglaterra, vemos treinadores com 20 anos de trabalho que não ganham títulos e são reconhecidos”, explica.

Com a vida ligada ao São Paulo, Muricy Ramalho acredita que o principal neste momento é ficar marcado na história do clube que defendeu como jogador e iniciou sua trajetória como treinador. “Já tinha sido treinador aqui outras vezes e, quando deixei o clube, fiz a promessa de que não poderia deixar uma imagem de derrotas. Eu me preparei para esse retorno, para dar a volta por cima e provar minha condição”, lembra.

Com seu estilo simples de trabalho, Muricy Ramalho já deixa claro que prefere ficar longe dos holofotes. Com essa personalidade, ele sabe que é mais difícil aparecer. No entanto, o treinador opta por valorizar seus atletas. ”Quem decide são os jogadores, ainda mais em uma final parelha como essa”, define.

A forma modesta e, em certas horas, sentimental de comandar fez Muricy Ramalho ganhar grande respeito no elenco são-paulino. “Ele é um ex-jogador e tem uma personalidade de atleta. Parece que ainda sente como um de nós. Perdendo ou ganhando, é um treinador que vibra. Vejo isso de forma positiva”, exalta o zagueiro Lugano. A partir desta quarta, um ficará mais próximo de ser consagrado e outro de amargar o estigma de "técnico regional".

 

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